CRÓNICA

José Leite Pereira

José Leite Pereira iniciou-se como jornalista no jornal Record, em 1971. Passou por diversas Redações – Diário Popular, Ponto, Europeu, Diário de Lisboa, Diário de Notícias e Jornal de Notícias, que dirigiu entre 2000 e 2011, ano em que se reformou. Atualmente é comentador da RTP.

Sabes quem fala?

Pede-me o Aurélio Carlos Moreira uma croniqueta para celebrar o “Paju”, onde colaborei no início dos anos 70. A verdade é que estou mais interessado em celebrar o próprio Aurélio Carlos do que o programa onde me lembro de ter ensaiado umas incipientes crónicas desportivas.

Há quanto tempo nos conhecemos? – Sei lá bem! Como outro dia dizia a Alice Vieira sobre o próprio Aurélio Carlos Moreira, e citando-o a ele mesmo, ainda havia farinha Amparo e restaurador Olex! Mas havia mesmo. O Aurélio é um pouco menos novo que eu, mas a verdade é que nesse tempo conhecíamo-nos quase todos, éramos poucos jornalistas, poucos animadores radiofónicos, poucos locutores de televisão.

Naquele tempo, os meus primeiros tempos na profissão, escrevia-se à mão. Havia os tipógrafos que nos decifravam caligrafias difíceis. Quando as máquinas de escrever chegaram às Redações – que na altura eram RedaCÇoes – o barulho do teclado incomodava os que se mantinham fiéis às origens. O Aurélio era mais converseta e música. Tudo no éter. Ao Paju, salvo erro nos Emissores Associados de Lisboa, fui parar porque ele apostava em jovens em início de carreira. Lembro-me de lá ir com o Xico Sena Santos e de ver o Aurélio sempre numa correria, de gravação para gravação ou atrás de um artista da moda. Outros melhor do que eu darão testemunho mais fundado da importância que ele teve na divulgação de artistas portugueses. Sempre com uma graça, sempre bem-disposto, sempre de bem com a vida – e a vida pregou-lhe partidas bem grandes.

Estive sem ver o Aurélio durante uns anos. Mais de vinte, certamente. Mas ele ligou-me outro dia. Desafiou-me: “Sabes quem fala”? – Podia lá não saber. Uma voz inconfundível. Eu sei que ele ficou vaidoso por eu o reconhecer pela voz tantos anos depois. Afinal de contas, a voz é a sua identidade.

A Amizade tem destas coisas. A gente pode estar sem se ver e sem se falar uma data de anos. Mas quando acontece retoma-se como se tivéssemos falado na véspera. Com o Aurélio não podia ser de outra forma, porque ele pertence a uma categoria de pessoas puras, verdadeiras, sem maldade. Inesquecíveis. Foi por isso que, quando ele me ligou e pediu um texto, me limitei a perguntar “quantos carateres queres?”. O texto, este texto, convenhamos, é banal – ele merece mais e melhor. Mas, acreditem, encerra uma profunda admiração pelo homem bom que sempre vi no Aurélio Carlos Moreira.

José Leite Pereira

José Leite Pereira esteve no PAJU em 1974/75 no Rádio Clube Português - FM.

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